Em romance, Leonardo Tonus defende a literatura da urgência contra a desumanização do migrante
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Em tempos de fronteiras fechadas e discursos xenófobos, Leonardo Tonus lança um romance que é, antes de tudo, um alerta. "Antes que as palavras te esqueçam" (Editora Cepe) nasce da inquietação diante da naturalização da desumanização do migrante — um fenômeno que transforma pessoas em estatísticas, reduz vidas a imagens de sofrimento e precariedade.
Professor de Literatura Brasileira na Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris, e referência nos estudos sobre imigração, Tonus constrói sua narrativa em 24 cartas enviadas por L., um brasileiro, a Jamal, refugiado afegão em Berlim. Cartas que nunca recebem resposta. Nesse silêncio, o autor inscreve uma metáfora poderosa: “O vazio do silêncio não existe. O silêncio não é a ausência. Ele cria uma tensão”, afirma.
Essa tensão é a mesma que atravessa os discursos contemporâneos, onde o migrante se tornou bode expiatório: “O grande problema hoje é a naturalização desse discurso xenófobo. O imigrante se tornou a causa de todos os males do nosso mundo, como se suprimir esse imigrante bastasse para resolver todos os problemas econômicos e sociais — o que sabemos ser uma falácia.”
Para Tonus, a literatura é resistência: “Eu acredito muito nessa literatura da urgência: falar sobre o que está acontecendo hoje, a questão da denúncia para abrir os olhos do mundo.” Seu romance não é apenas ficção, mas um convite à empatia: “Pessoas em situação de refúgio têm o direito de amar, têm o direito de sorrir, têm o direito simplesmente de viver.”
A construção do livro também dialoga com uma tradição literária marcada pela urgência. Tonus cita o escritor alemão Hans Fallada, autor de "Morrer sozinho em Berlim", que transformou documentos da Gestapo em ficção para narrar a resistência ao nazismo: “Ele fala: ‘eu vou me servir deliberadamente da ficção, porque a realidade não consigo mais dar conta’.”
Outro autor que inspirou o escritor paulistano foi o italiano Primo Levi, sobrevivente do Holocausto, que defendia a ficção como única forma de abordar o inenarrável: “Face ao impossível de ser concebido, como um campo de concentração, a ficção permite isso”, destaca Leonardo Tonus. Essa escolha estética reforça a ideia de que, diante da tragédia, a literatura não é fuga, mas ferramenta para compreender o humano.
Histórias de famíliaEssa urgência também é pessoal. Filho e neto de imigrantes italianos, Tonus cresceu ouvindo histórias de travessias e perdas. “Eu digo muitas vezes, brincando, que eu nasci migrante e que toda a minha experiência está ligada ao processo de imigração.”
Ele lembra que seus avós atravessaram o oceano em um barco de terceira classe e viveram a dificuldade de nunca mais voltar ao país de origem. “É um trauma que me foi transmitido”, afirma. Essa memória familiar, somada à experiência de expatriado voluntário, alimenta sua escrita e sua pesquisa: “Há uma certa proximidade que nos aproxima todos, aqueles que vivem em situação de expatriação, vinculadas ao silêncio, ao olhar que reprova, ao choque cultural.”
Com uma escrita que oscila entre o íntimo e o político, o livro "Antes que as palavras te esqueçam" devolve humanidade àqueles que a narrativa dominante insiste em silenciar.