Épisodes

  • Carlos Andrade: “Preciso de fazer coisas em crioulo. Sinto que tenho uma responsabilidade com Cabo Verde, porque não há muitas pessoas a fazer conteúdos em crioulo”
    Dec 25 2025

    Popularizado nas redes sociais, pela criação de conteúdos humorísticos em crioulo cabo-verdiano, Carlos Andrade, ou simplesmente ‘Artolash’, estende cada vez mais a sua influência digital aos palcos. Autor do espetáculo “Berdianos ka Konxi Limiti” (“Cabo-verdianos não conhecem limites”) – com o qual esgotou, no último sábado, 20, o Auditório Nacional da cidade da Praia, em Cabo Verde –, o humorista é o convidado desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

    Quando olha para a chegada a Portugal, aos 16 anos, Carlos Andrade vê com nitidez não apenas o que encontrou, mas sobretudo o que ficou para trás. “Se permanecesse em Cabo Verde, acho que o meu futuro teria sido muito diferente”, diz, enquanto revisita impulsos adolescentes.

    “Comecei a fazer umas coisas um bocadinho manhosas, a dar-me com pessoas que não devia. Uma delas está presa, outra morreu”, conta neste episódio d’ ‘O Tal Podcast’, sem esquecer um encontro providencial com um polícia à paisana.

    “Apontou-me uma arma, encostou-me à parede, revistou-me e disse: ‘O que estás a fazer? Volta para casa!”.

    Carlos obedeceu e, embora não acredite em planos divinos, ficou com a sensação de que talvez a mãe já pressentisse o pior. “Percebeu que se não me tirasse de Cabo Verde, provavelmente alguma coisa de mal poderia acontecer”.

    Como quem dá à luz a várias vidas do filho, Inês Andrade, mãe do humorista, está no centro de todas as grandes mudanças da sua história, percorridas nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.

    Para começar, foi a mãe quem tratou de tudo para que, ainda no secundário, viesse estudar para Portugal. Depois, encorajou-o a nunca desistir dos estudos, via de acesso à SIC, onde a produção e gestão de conteúdos o transportou para vários momentos inimagináveis.

    “Nunca pensei falar pessoalmente com a [atriz] Juliana Paes, e ela já bebeu grogue comigo, porque quando fui para os Emmy levei uma garrafa, e fiz um conteúdo incrível com o pessoal”.

    O momento viveu-se em 2019, em Lisboa, na Gala Semifinal dos International Emmy Awards, numa altura em que a sua mãe já se tinha transformado numa espécie de talismã artístico.

    “Representei-a muito em vídeos e sketches que me catapultaram no mercado cabo-verdiano, para ser mais conhecido e fazer mais shows”.

    Com a recriação, em personagem, da figura da mãe cabo-verdiana, inspirada na sua própria progenitora – a que se juntam outras criações icónicas, como Djubensu –, ‘Artolash’ foi firmando assinatura humorística nas redes sociais, sempre em crioulo, presença hoje popularizada muito além do digital.

    Depois de várias apresentações para a diáspora cabo-verdiana nos EUA e em países europeus, o comediante esgotou, no último sábado, 20, o Auditório Nacional da cidade da Praia, em Cabo Verde, com o espetáculo “Berdianos ka Konxi Limiti”. Em português, “Cabo-verdianos não conhecem limites”.

    A proposta estreou-se este ano em Lisboa, confirmando que, também por cá, há público para a comédia em crioulo.

    “Sinto que tenho uma responsabilidade com Cabo Verde, porque não há muitas pessoas a fazer conteúdos em crioulo”, nota o humorista, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.

    Mas, muito mais do que subir ao palco disposto a arrancar gargalhadas de audiências, o humorista – e assumido viciado em fazer rir os outros – orgulha-se de contribuir para a emergência de uma nova geração de comediantes.

    “Vários humoristas cabo-verdianos agradecem-me porque tive influência no começo da sua carreira. Hoje estão a trabalhar, e conseguem fazer dinheiro online, com humor e publicidade. Isso deixa-me contente”, revela Carlos Andrade neste episódio d’ ‘O Tal Podcast’, que pode ouvir aqui.

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    58 min
  • Mariana Gil (Parte 2): “Não represento ninguém. Apresento-me, e isso pode servir de representatividade, que são coisas diferentes”
    Dec 18 2025

    Maria e Mariana Gil, mãe e filha, são as convidadas deste episódio de ‘O Tal Podcast’, para ouvir em duas partes. No final da primeira metade da conversa, que pode escutar aqui, estávamos prestes a conhecer uma das histórias que marcam um contínuo de embates étnico-raciais vividos pela família na escola, ponto de partida para a segunda parte deste episódio, conduzido por Georgina Angélica e Paula Cardoso.

    "Os gémeos estavam na pré-escola e pediram-nos: tragam algo para a festa de Natal, que tenha a ver com o lugar de onde vêm. Eu disse: nós moramos aqui ao lado, nascemos aqui", conta a mãe de António, Salvador, Vicente e Mariana, lembrando que, nessa como noutras ocasiões, fez questão de sublinhar que a sua família não se limita a estar aqui, porque ela é daqui.

    Como se não bastasse ser relegada à condição de estrangeira no próprio país, Maria ainda teve de suportar a ostracização da sua herança cultural, ao propor levar um doce cigano, típico de Natal.

    “Alguém da escola diz: não faça isso aos seus filhos. Já viu que são tão giros, tão loirinhos. Assim, toda a gente fica a saber que são ciganos".

    A circunstância de ter de se “moldar a uma clandestinidade, para ter acesso ao que é legítimo”, conforme referiu na primeira parte desta conversa, não a protege, contudo, do anticiganismo nem do racismo, algo que refere na segunda metade deste episódio de ‘O Tal Podcast’.

    “O nosso lazer é uma afrontação para o geral, é criminalizado. Eu, enquanto corpo cigano, ou corpo racializado, sentada numa esplanada, não estou a fazer mais nada a não ser viver à custa dos outros”.

    Entre a hipervisibilização que condena, e a invisibilização que exclui, Mariana matura o olhar: “A resistência foi-me imposta. Eu nasci para existir e obrigaram-me a resistir”.

    Na sequência do que tinha referido na primeira parte deste episódio, quando mencionou que o ativismo se tornou incontornável na sua história, a estudante de Ciências da Comunicação partilha a importância de trazer leveza a esse quotidiano de combatividade.

    “Falei sobre apropriação cultural na televisão, e agora só estou nesse lugar de militância, de luta, e tudo o que me desvie disso é frivolidade ou futilidade”, assinala, recordando a passagem pelo concurso Cabelo Pantene.

    “Tinha plena consciência de que também era o meu espaço”, recorda, enquanto insiste na força do amor-próprio. “No infantário diziam: és feia, e eu: ok, fica com a tua opinião. Nem toda a gente cresce com essa autoestima”.

    Apesar de reconhecer o efeito da representatividade nessa equação, a jovem faz questão de se libertar de narrativas de excecionalidade. “Gosto quando as pessoas se inspiram naquilo que digo. Não gosto quando dizem: Mariana, tu vais salvar-nos, porque não posso salvar ninguém sem também ser salva”.

    Determinada a encontrar o seu caminho de leveza e de descanso, onde inclui expetativas de uma vida política e financeiramente estável, a estudante é perentória: “Não represento ninguém. Apresento-me, e isso pode servir de representatividade, que são coisas diferentes”.

    Os planos da filha cruzam-se com os desejos da mãe. “Uma das grandes aspirações que tenho para a Mariana é ela poder acordar sem ter de se preocupar: ‘Será que vou vestir já a capa de ‘super guerreira, super heroína’? Simplesmente o poder da escolha”.

    Por agora, a estudante lembra que o direito de escolher continua longe de ser universal. “Quando não se vem de uma classe endinheirada, temos de pensar: vou para a faculdade, isso significa adiar talvez três anos de trabalho, mas se escolher bem o curso, será que me dá dinheiro logo?”.

    Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.

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    49 min
  • Maria Gil (Parte 1): “É muito cansativo educar os nossos filhos para uma militância permanente. Educá-los sobre um estado constante de vigilância é de uma violência enorme”
    Dec 12 2025

    Mãe e filha, Maria e Mariana Gil são as convidadas deste episódio de O Tal Podcast, para ouvir em duas partes. Nesta primeira metade da conversa, Georgina Angélica e Paula Cardoso percorrem os afetos familiares, indissociáveis de uma herança coletiva de desafetos.

    “Há um projeto secular do anticiganismo, bem impresso na história em Portugal. Tanto que os nossos filhos, quando estão na escola, têm que se editar. Têm que entrar deixando a sua identidade para trás, porque não há nada nos livros escolares que diga: vocês existem”.

    O diagnóstico, aponta Maria, agrava-se num emaranhado de preconceitos que forçam destinos de luta e resiliência.

    “É muito cansativo educar os nossos filhos para uma militância permanente. Educá-los sobre um estado constante de vigilância é de uma violência enorme”.

    Antes do nascimento de Mariana, há 20 anos, Maria já educava António, Salvador e Vicente, experiência que a obrigou a calibrar perspetivas, e a reconhecer na escola um lugar de confrontos.

    A experiência é partilhada pela filha única, perentória na autodescrição: “Atualmente, a minha simples apresentação torna-se um ato de resistência: sou Mariana, cigana, afrodescendente e estudante do Ensino Superior em Portugal”.

    Desde cedo confrontada com o peso das características que marcam a sua identidade, a mais nova dos Gil recorda quão “perverso” pode ser o sistema de ensino.

    “No nono ano, antes do Covid-19, tinha um colega racista, que fazia afirmações extremamente perigosas. Tive a infelicidade de, no calor de uma discussão, em que ele se dirigia a mim com extrema violência, o chamar de nazi”, conta, sem perder de vista o desfecho. “No final do período, tive um valor retirado da nota e o aluno racista não teve nenhuma repreensão. Nem tentaram perceber a motivação daquela minha palavra”.

    Antes desse embate, a hoje estudante de Ciências da Comunicação recorda o primeiro confronto com os enviesamentos curriculares.

    “Fui a primeira pessoa a aprender a ler na minha turma, e a primeira vez que abri um dicionário, das primeiras palavras que fui procurar foi cigano. O que lá encontrei não foi nada bom”.

    A consciência da discriminação e da exclusão não demoraram a forjar um forte compromisso ativista, extensivo ao universo da moda, que navega criticamente.

    “Porquê é que numa menina branca um coque bastante liso e umas argolas douradas é clean e chic, mas numa menina cigana, negra, indiana já é um estilo marginal? Comecei-me a questionar”, adianta Mariana, criadora da “Statement Magazine”, projeto académico que define como “disruptivo”.

    O engenho criativo e a assinatura política, reconhecida pelos pares, evidencia-se em casa desde a infância.

    “A Mariana tem uma capacidade imensa, de me obrigar a reorganizar enquanto pensamento. Ela consegue fazer essa reorganização não para mim, não por mim, mas comigo. Isso tem sido incrível, porque tem-me trazido outros pontos de consciência”.

    Ao reconhecimento materno, a estudante universitária responde com reconhecimento filial. “Eu e a minha mãe estivemos ligadas durante nove meses por um cordão umbilical, e depois a ligação manteve-se via Bluetooth. Somos dois dispositivos que não funcionam um sem o outro”.

    Os firmes laços familiares expressam-se também numa campanha fraterna no mínimo original: “Os meus irmãos têm um autocolante no telemóvel a dizer: Marianinha for President [Marianinha para Presidente]”.

    Ouço aqui a primeira parte deste episódio, que continua na próxima semana.

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    48 min
  • José Baessa de Pina: “Não há trabalho precário. Há trabalhos mal pagos que tornam a pessoa precária”
    Dec 4 2025

    No mesmo ano – 1976 – em que Portugal aprovava a sua Constituição, estabelecendo os direitos, liberdades e garantias fundamentais dos seus cidadãos, José Baessa de Pina nascia em território nacional, destituído dos mais elementares preceitos constitucionais.

    Filho de ex-contratados cabo-verdianos que, antes de serem mobilizados para Lisboa pelo regime colonial, amargaram trabalhos forçados nas roças de São Tomé e Príncipe, Sinho, como é mais conhecido, habituou-se a contar a sua história no plural.

    A caminho dos 50 anos, o vice-presidente da Associação Cavaleiros de São Brás, com sede no Casal da Boba, na Amadora, reconstitui as memórias pessoais e familiares a partir dos laços comunitários que nenhum processo de demolições e realojamentos conseguiu desfazer.

    Convidado desta semana de O Tal Podcast, Sinho recorda como os escombros do Bairro das Fontainhas, onde cresceu, continuaram a ser lugar de pertença anos após a mudança para a Boba.

    “No processo de realojamento não se preocuparam com o acompanhamento de psicólogos, [o efeito de] tirar uma pessoa de uma comunidade autoconstruída, pé no chão, que tem muita solidariedade e autoajuda”, nota o líder comunitário, partilhando um dos efeitos do desenraizamento.

    “Fomos realojados em 2001. Em 2004, nós, jovens, ainda dormíamos nas Fontainhas. Isso tem que ser estudado. Porque é que és realojado num bairro, e três anos depois ainda vais dormir [ao antigo bairro]”.

    As marcas dessa experiência avivam-se nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, e também se ativam no passeio “Noz Stória”, conduzido por Sinho como uma homenagem à sua comunidade, e uma denúncia contra as ausências e os excessos do Estado.

    “Enquanto a esquadra não estivesse construída, não fazíamos o realojamento. Foi a primeira coisa que senti: vamos continuar a ser guetizados”.

    As políticas de exclusão, nota o também agente cultural, estão bem visíveis na paisagem urbana que caracteriza os bairros de habitação municipal, esvaziados de zonas verdes e áreas de diversão para as crianças.

    “Havia uma biblioteca, o Pólo da Boba, e tiraram. Era a melhor ferramenta que estava no bairro”.

    Muito além dos espaços, as lógicas de subtração operam na construção da personalidade, conforme conta Sinho neste episódio.

    “A minha primeira língua é o crioulo. Levei várias reguadas porque a professora dizia que eu não falava correto. Isto tira-te a autoestima, queres ficar lá no canto”.

    Hoje pai de uma jovem mulher– a atleta olímpica Taís de Pina –, e de gémeos adolescentes, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso faz questão de quebrar velhos ciclos de encolhimento.

    “O meu pai nunca falou comigo, era pouco diálogo, muito rígido. Estamos noutro tempo, mas ainda a desconstruir, porque há um modelo de criação antigo que com essas crianças de agora tens que negociar, sem deixar o respeito”.

    Nesta conversa, o líder comunitário reflete também sobre a desproteção das relações laborais.

    “Não há trabalho precário. Há trabalhos mal pagos que tornam a pessoa precária”, defende, alertando para os desequilíbrios de poder que fragilizam os trabalhadores."Temos um Portugal com neocolonialismo. Estamos a ver na televisão, em 2025, a mesma exploração. Está escancarado nas notícias: 10 GNR dentro de um gangue a escravizar pessoas”.

    Ouça o episódio completo aqui.

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    1 h et 4 min
  • Telma Tvon: “A minha avó já era coach de desenvolvimento pessoal. Essa história de ‘tu é suficiente, magnífica, fantástica’ ela dizia-me a mim, aos meus primos e à minha irmã”
    Nov 27 2025

    Desligada das redes sociais, por lhe darem mais dores de cabeça do que alegrias,Telma Tvon anda sempre acompanhada de pelo menos um par de livros. "Jogos da prisão", que estava a ler à data desta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, revirou-lhe intensamente as emoções, talvez por encontrar na escrita de Nana Kwame Adjei-Brenyah mais um retrato inquietante da realidade.

    É a ela – à vida nossa de todos os dias – que a convidada deste episódio d’ O Tal Podcast vai buscar inspiração para criar. Seja no rap, onde se destacou como integrante das Backwordz, seja na literatura, onde se estreou com “Um preto muito português”.

    A obra, publicada em 2017, foi reeditada no ano passado pela Quetzal, selo editorial com que se prepara para lançar um novo título, no qual as mulheres são sujeito e ação.

    É para elas que a escritora e rapper deixa uma mensagem, já no final desta conversa.

    “Gostaria de lançar um desafio para quem nos está a ouvir, sendo mulheres africanas, ou descendentes de mulheres africanas, para nos juntarmos, e consumirmos mais coisas que as mulheres africanas estão a produzir”.

    Mais do que um encontro, Telma propõe um movimento de rutura com velhos condicionamentos. “Sentia-me deslocada no universo feminino. Cresci com muitos primos, e tinha a ideia errada de que as mulheres não gostavam de mim. Acho que a sociedade nos incute isso”.

    Há muito distanciada de imposições e distorções de género, a angolana conta como o rap foi passaporte para se encontrar, numa viagem por rimas que se iniciou na infância, em Luanda, e levantou voo na adolescência, vivida nas periferias de Lisboa, entre turbulências de adaptação.

    “Saí de Angola por causa da guerra. Mas vim um bocado contrariada. Eu estava feliz lá, com os meus 12, 13 anos, com amigos, a crescer e a aprender tantas coisas”.

    Já em Portugal, Telma confrontou-se com novos espelhos. “Vens, e de repente tens que conhecer todo um outro universo. Pessoas que nem sempre estão recetivas porque és diferente, porque és essa pessoa preta, estranha, que vieste para o país deles”.

    As provações da mudança tiveram na escola um dos palcos principais, de onde a escritora extrai muitos episódios de discriminação.

    “Sempre fui muito boa aluna. Fiz um teste de português e fui a melhor, mas a professora achou que tinha copiado. Disse: como é que uma aluna que veio da Angola pode ter a melhor nota?”.

    Nessa, como noutras situações, Telma encontrou na avó o porto de abrigo. “Às vezes chegava a casa a chorar, outras, cheia de raiva, e a minha avó era a pessoa que me punha no centro. Dizia: não vais ser igual a eles. Eles não foram educados como tu foste”.

    Enraizada na segurança encontrada no reduto familiar, a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso revela que “quando sentia que estava a desmoronar”, porque duvidavam das suas capacidades, lembrava-se sempre da avó. Ela “já era coach de desenvolvimento pessoal”, brinca a a angolana que, nesta conversa, percorre também memórias de Luanda, e partilha o seu olhar sobre o atual momento da sociedade portuguesa.

    “Houve uma altura que os professores se coibiam de dizer certas coisas aos alunos. Agora tens miúdos de 14, 15 anos a quererem desistir da escola porque o professor disse: porque é que queres ir para a Química? A tua mãe é empregada doméstica”.

    Ouça o episódio completo aqui.

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    58 min
  • Bruno Furtado: “Colocam em causa a legitimidade do meu documento porque nasci em Santa Maria [no hospital] e sou cabo-verdiano. É como se fosse um gajo falsificado, como se não existisse”
    Nov 20 2025

    Onze anos de prisão em quase 40 de vida dão a Bruno Furtado uma idade que não cabe em documentos. Mas são eles – os papéis – que marcam a sua história, já traduzida para o documentário “Complô”, que se estreia hoje, 20, nos cinemas de mais de uma dezena de cidades do país.

    A produção, assinada por João Miller Guerra, já foi distinguida com uma Menção Honrosa, na última edição do Doclisboa, projetando uma condição pouco conhecida, ou até mesmo desconhecida em Portugal: a de “órfão do Estado”.

    É sobre ela que gravita a existência de Bruno, o convidado desta semana de O Tal Podcast.

    Nascido no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, Ghoya, como também é tratado, nunca viu reconhecido o direito a ser português.

    Empurrado por sucessivas ‘armadilhas’ administrativas para as margens do exercício da cidadania, o rapper e ativista político conhece bem as impossibilidades de uma existência indocumentada.

    “Colocam em causa a legitimidade do meu documento porque nasci em Santa Maria [no hospital] e sou cabo-verdiano. É como se fosse um gajo falsificado, como se não existisse”, conta.

    ‘Invisível’ no sistema dos direitos, e hipervisível no território dos delitos, Bruno começou cedo o seu percurso de institucionalização.

    “As pessoas podem meter os rótulos que quiserem, mas se estamos num centro educativo somos crianças. Fizemos alguma coisa que justifica estar lá, tudo bem, mas chegamos e temos monitores que não estão preparados para lidar com a situação”.

    Sem rodeios, Ghoya recorda, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, o abandono infantil que viveu e testemunhou quando foi institucionalizado, e vê nele uma fonte de desigualdades estruturais.

    Hoje pai de três, o rapper sublinha que as pessoas indefesas, como o são as crianças, devem ser cuidadas e protegidas.

    A consciência mantém-no, por enquanto, longe dos filhos. “Estão em Inglaterra, com a mãe deles. Quero ir visitá-los, e não posso”, lamenta Bruno, expondo um dos efeitos da falta de documentos. “É um complô tão grande que nem se importam que tu saias [do país]. Depois, estás a entrar e dizem: ‘Não, desculpa lá, tu nem és português”.

    A prática sobressai no documentário, que, tal como as músicas de Ghoya, denunciam os caminhos e descaminhos que se traçam entre excesso e défice de Estado.

    “Essa vontade que a polícia sente de invadir os nossos corpos e nos brutalizar de forma tão violenta já vem de um hábito. Fazem-nos isso desde tenra idade”, nota o activista, realçando que nada tem contra os agentes.

    “Nós vemos a polícia como um órgão que nos protege, que nos deve defender. O que me indigna não é haver um ou 10 polícias maus. É que nem os bons se prontificam a combater isso, e se protegem. Há aqui uma inversão de valores”.

    Crítico, desde logo de si próprio, Bruno Furtado partilha, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, os processos de desumanização que se vivem nas cadeias e fora delas.

    “Existe uma espécie de negação patológica [em Portugal]. Temos cidades, bairros e ruas de ascendência árabe e africana. E agora, como se estivéssemos numa crise de identidade, dizemos: não temos nada a ver com vocês”.

    Ouça o episódio completo aqui

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    1 h et 5 min
  • Pedro Hossi: “As nossas cabeças são lugares violentíssimos e horríveis. Nós somos os nossos piores inimigos, somos extremamente duros connosco”
    Nov 13 2025

    Às vezes em estúdios de televisão, outras nos palcos do teatro, e também pelos plateaux de cinema, Pedro Hossi veste e despe personagens há mais de duas décadas. Ator com formação no prestigiado Lee Strasberg em Nova Iorque, o também realizador conta, neste episódio de O Tal Podcast, como passou de “vadio” a “príncipe” no mundo da representação.

    As inesperadas categorias profissionais, que conheceu a partir das lições do veterano George Loros, marcam o arranque desta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, pontuada por reflexões sobre a carreira, a família e a espiritualidade.

    “Sinto-me muito tranquilo em relação ao passar do tempo e dos dias. Mas há coisas que quero fazer, e estou muito mais consciente em relação àquilo que tem que ser feito”, aponta o angolano, sublinhando que nem sempre foi assim.

    “Padeci dessa doença de me levar muito a sério quando comecei”, recorda, enquanto avalia o currículo de aprendizagens. “Fui parar a uma escola de teatro que ensina uma técnica – o método – que convida o ator a mergulhar em si para emprestar isso à personagem”. O processo, explica Pedro, “faz com que os atores fiquem no seu mundo”, fechamento que se pode revelar problemático. “Levou-me algum tempo a sair daí”.

    Assim encerrados, como nos libertamos de nós mesmos?

    “Lembro-me de estar num período desajustado, com muitas questões e talvez alguma falta de fé, e de ter feito uma viagem que me ajudou a restaurar esse conceito de fé, e a perceber que o mundo não anda à deriva, e a perceber também que o carma tem a ver com as nossas ações”.

    Hoje apaziguado com as perdas da vida, “sejam mortes, fins de relações, pessoas que se afastam”, o ator considera que “aí existe muita graça”, porque “é quando provavelmente estamos mais próximos de Deus”.

    Não a representação cunhada pelas religiões, mas aquela intrinsecamente humana. “Acho que existe um Criador, mas nem me atrevo a tentar descodificar que criador é esse, se tem formas, se é uma energia”, revela o convidado desta semana d’ O Tal Podcast, para quem “todos somos seres espirituais”, ainda que muitos de nós se tenham esquecido.

    “Quando tudo está a desmoronar, ou falha, ou quando estamos num lugar de perfeito desajuste, podemos sempre fechar os olhos, respirar fundo e meditar”, propõe o ator, que encontrou nessa desaceleração uma prática diária, com ganhos assinaláveis.

    “Sinto-me com muito mais energia vital hoje do que tinha há 10 ou há 20 anos. Tenho uma prática física muito regular, e isso tem mais que ver com processos mentais do que com processos físicos”.

    Talvez por isso, Pedro veja como redutor o conceito de saúde mental. “Acho que essa designação fica muito aquém do flagelo real do que vai dentro da cabeça das pessoas”, nota, sem hesitar no autodiagnóstico. “Sou duro comigo, especialmente quando fico aquém daquilo que sei que é a minha capacidade”.

    Consciente de que não está sozinho nesse processo de autoflagelação, o angolano considera que “as nossas cabeças são lugares violentíssimos e horríveis”, acrescentando: “Nós somos os nossos piores inimigos, somos extremamente duros connosco”.

    Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, o ator angolano partilha também a proximidade aos avós e à mãe – que o teve com 15 anos –, e revisita o polémico beijo gay que protagonizou na novela angolana Jikulumessu.

    “Fui ameaçado uma vez na rua [em Luanda]. Lembro-me de um tipo se ter dirigido a mim e dizer: vocês estão a trazer para aqui essa coisa da homossexualidade. Isto não faz parte da nossa cultura”.

    Ouça aqui o episódio na íntegra.

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    1 h
  • REWIND - Paula Almeida
    Nov 11 2025

    “Estejamos mais abertos para acolher as nossas crianças!”. Mais do que a expressão da sua experiência profissional e da vivência pessoal, as palavras de Paula Almeida refletem a sua consciência sobre a necessidade de um despertar comunitário. “A mulher negra sempre acolheu”, assinala nesta conversa, entre partilhas sobre a sua própria viagem pela maternidade.

    https://www.otalpodcast.com/p/paula-almeida

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    2 min