Épisodes

  • 'Nas Entrelinhas': o guia de Maria Marques indispensável para tradutores e aficionados pelo francês
    Dec 15 2025

    Imagine chegar à França nos anos 80, sem internet, sem celular e sem brasileiros por perto. Foi assim que Maria Marques aprendeu francês: mergulhada na vida cotidiana da Córsega, ilha mediterrânea de paisagens deslumbrantes, onde “ou eu falava francês, ou eu falava francês”, como ela resume. Quatro décadas depois, a carioca lançou "Nas Entrelinhas", um guia prático de tradução do francês para o português, pela editora Longarina.

    Formada em Língua e Civilização Inglesa e Francesa pela Sorbonne Nouvelle, Maria atua como tradutora há 35 anos, além de ter sido durante vários anos professora do mestrado de tradução da Escola Superior de Intérpretes e Tradutores de Paris (École Supérieure d'Interprètes et de Traducteurs).

    O livro reúne 1001 verbetes que mostram como uma mesma palavra pode assumir sentidos inesperados conforme o contexto em que é utilizada. “Do francês para o português existem dicionários unilíngues, bilíngues, mas eles não são suficientemente extensos e profundos para as necessidades do tradutor”, observa. “Eles dão uma definição, mas não explicam tudo”, completa.

    A ideia do guia nasceu de uma prática diária: anotar as palavras que a faziam “tropeçar” no momento de escolher a melhor tradução. “Tropeçar é parar, pesquisar, refletir, perguntar para colegas”, conta. Ao longo de 15 anos, Maria colecionou expressões que desafiam tradutores e selecionou aquelas mais frequentes ou mais traiçoeiras. “Na pandemia, percebi que já tinha quase mil verbetes. Com 536 páginas, ficou um guia robusto, mas ainda manejável.”

    Surpresas

    Entre os exemplos, há surpresas para quem pensa conhecer bem o francês. Ménage, por exemplo, ocupa duas páginas. “Os brasileiros conhecem pelo ménage à trois, mas ménage também é lar, casal, família... e faxina!”, brinca. Essa multiplicidade revela, segundo ela, “a capacidade da língua francesa de criar imagens muito ricas”, algo que fascina a tradutora até hoje.

    Maria também coleciona histórias curiosas do ensino. “Uma estudante traduziu a expressão à vol d’oiseau como ‘no voo do pássaro’”, lembra, rindo. “Na verdade, significa ‘em linha reta’. Esse exemplo foi direto para o trono!” Casos assim reforçam a importância do contexto e da sensibilidade cultural na tradução – algo que nenhum dicionário resolve sozinho.

    'Ouvir a música da língua'

    Falando em cultura, Maria destaca um capítulo essencial da sua trajetória: os quatro anos vividos na Córsega, durante a década de 1980. “Não existia internet, nem celular, nem WhatsApp. Então eu lia jornais, revistas, livros, e ficava teimosamente até entender a engrenagem da frase”, conta. Essa imersão, para ela, foi decisiva. “A formação acadêmica é importante, mas não basta. É preciso viver a cultura, ouvir a música da língua.”

    Essa música, aliás, é tão forte que Maria confessa: “Se um dia me disserem: você vai traduzir para português de Portugal ou para francês? Eu prefiro francês. Porque eu tenho a música do francês nos meus ouvidos.” Uma declaração que resume bem a paixão de quem fez da tradução não apenas um ofício, mas uma forma de vida.

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  • Álbum acústico de Ricardo Vilas celebra conexões entre música do Brasil e de Angola
    Dec 15 2025

    Após mais de 55 anos de carreira e 28 álbuns, Ricardo Vilas lança Vilas Maravilha, em parceria com o grupo angolano Banda Maravilha. Neste novo trabalho, o músico, pesquisador e produtor celebra o encontro musical entre Brasil e Angola e busca “desmistificar” a cultura africana para os brasileiros.

    Gravado em Luanda e mixado e masterizado no Rio de Janeiro, o álbum reúne 12 faixas e, segundo o compositor, “é um gesto político sonoro de reconexão entre dois territórios irmãos unidos por uma musicalidade compartilhada”. Vilas contou que seu primeiro contato com músicos angolanos ocorreu em Paris, onde se exilou nos anos 1970, durante a ditadura militar no Brasil.

    “Havia muitos angolanos aqui. Angola estava em guerra colonial contra Portugal e muitos tinham saído por causa dessa guerra. O que me impressionou muito porque os músicos angolanos conheciam profundamente a música brasileira e o repertório que estava tocando — e não tinha internet nessa época”, sublinha. “Eles muitas vezes se faziam passar por brasileiros para poder trabalhar, porque a música angolana não tinha muito mercado naquele momento.”

    O contato com a música do país africano despertou a curiosidade do brasileiro, que decidiu realizar uma tese de doutorado para pesquisar a relação entre a música brasileira e a africana. “A gente escuta muito no Brasil que a música brasileira tem raízes africanas, e eu quis entender um pouco mais isso”, diz. “Eu foquei em Angola, que é o país mais próximo de nós, geograficamente e culturalmente.”

    A pesquisa levou Vilas a Angola em 2012, onde fez vários contatos com músicos, “alguns importantes no momento da luta ou da libertação, porque Angola teve uma luta muito selvagem”, afirma, referindo-se à guerra civil que durou de 1975 a 2002. “A música tinha um papel muito importante nesse processo. Foi um cimento para a identidade angolana.”

    “Lá, eu inclusive vi que vários dos músicos importantes da música angolana começaram fazendo música brasileira”, conta, citando nomes como Liceu Vieira, considerado o pai da música popular angolana. “Antes de fundar o grupo paradigmático Ngola Ritmos, ele fez um grupo de música brasileira.”

    Durante essa visita, Vilas também conheceu a Banda Maravilha, uma das mais longevas e conhecidas do país, com quem realizou seu último trabalho.

    Semba e samba

    Em Vilas Maravilha, o músico explora diversos ritmos angolanos e africanos, entre eles o semba.

    “Os angolanos gostam de falar que o samba vem do semba, mas nós sabemos que a primeira gravação do samba considerada oficial foi em 1917, ‘Pelo Telefone’, e o samba se estrutura enquanto música popular nos anos 1950. Quer dizer, o samba não vem do semba”, explica. “Porém, é verdade que o samba e o semba vêm dos batuques e se desenvolveram de forma diferente em Angola e no Brasil”, defende.

    “Então, a raiz comum é essa: a música brasileira tem muito da música africana, com certeza, mas não só. A música brasileira recebeu e recebe muitas influências”, completa.

    Metade das músicas do álbum, totalmente acústico, foi composta por Vilas. As outras seis canções são de compositores tradicionais angolanos, como David Zé e Carlos Lamartini, e também de nomes atuais, como Paulo Flores. Duas composições foram feitas em parceria com Filipe Zau, músico e atual ministro da Cultura de Angola.

    “O Brasil é muito conhecido em Angola, a música brasileira é muito conhecida. O inverso não. É praticamente inexistente a música angolana no Brasil”, lamenta Vilas, que pretende mudar esse olhar. “No Brasil, a música angolana não desperta muito interesse.”

    Para ele, o álbum tem o objetivo de mostrar a proximidade das músicas dos dois países, mas, sobretudo, de “desmistificar” um pouco a cultura africana. “Existe uma África contemporânea, uma África que cria cultura super rica, super diversa”, afirma, dizendo que quer “abrir um pouco os olhos e os ouvidos das pessoas para isso”.

    “Porque a África não é só aquela África ancestral da época dos escravos. Não é só isso”, conclui. “Eu acho que é importante desmistificar e mostrar isso, até para combater o preconceito da sociedade brasileira.”

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  • Em romance, Leonardo Tonus defende a literatura da urgência contra a desumanização do migrante
    Dec 10 2025

    Em tempos de fronteiras fechadas e discursos xenófobos, Leonardo Tonus lança um romance que é, antes de tudo, um alerta. "Antes que as palavras te esqueçam" (Editora Cepe) nasce da inquietação diante da naturalização da desumanização do migrante — um fenômeno que transforma pessoas em estatísticas, reduz vidas a imagens de sofrimento e precariedade.

    Professor de Literatura Brasileira na Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris, e referência nos estudos sobre imigração, Tonus constrói sua narrativa em 24 cartas enviadas por L., um brasileiro, a Jamal, refugiado afegão em Berlim. Cartas que nunca recebem resposta. Nesse silêncio, o autor inscreve uma metáfora poderosa: “O vazio do silêncio não existe. O silêncio não é a ausência. Ele cria uma tensão”, afirma.

    Essa tensão é a mesma que atravessa os discursos contemporâneos, onde o migrante se tornou bode expiatório: “O grande problema hoje é a naturalização desse discurso xenófobo. O imigrante se tornou a causa de todos os males do nosso mundo, como se suprimir esse imigrante bastasse para resolver todos os problemas econômicos e sociais — o que sabemos ser uma falácia.”

    Para Tonus, a literatura é resistência: “Eu acredito muito nessa literatura da urgência: falar sobre o que está acontecendo hoje, a questão da denúncia para abrir os olhos do mundo.” Seu romance não é apenas ficção, mas um convite à empatia: “Pessoas em situação de refúgio têm o direito de amar, têm o direito de sorrir, têm o direito simplesmente de viver.”

    A construção do livro também dialoga com uma tradição literária marcada pela urgência. Tonus cita o escritor alemão Hans Fallada, autor de "Morrer sozinho em Berlim", que transformou documentos da Gestapo em ficção para narrar a resistência ao nazismo: “Ele fala: ‘eu vou me servir deliberadamente da ficção, porque a realidade não consigo mais dar conta’.”

    Outro autor que inspirou o escritor paulistano foi o italiano Primo Levi, sobrevivente do Holocausto, que defendia a ficção como única forma de abordar o inenarrável: “Face ao impossível de ser concebido, como um campo de concentração, a ficção permite isso”, destaca Leonardo Tonus. Essa escolha estética reforça a ideia de que, diante da tragédia, a literatura não é fuga, mas ferramenta para compreender o humano.

    Histórias de família

    Essa urgência também é pessoal. Filho e neto de imigrantes italianos, Tonus cresceu ouvindo histórias de travessias e perdas. “Eu digo muitas vezes, brincando, que eu nasci migrante e que toda a minha experiência está ligada ao processo de imigração.”

    Ele lembra que seus avós atravessaram o oceano em um barco de terceira classe e viveram a dificuldade de nunca mais voltar ao país de origem. “É um trauma que me foi transmitido”, afirma. Essa memória familiar, somada à experiência de expatriado voluntário, alimenta sua escrita e sua pesquisa: “Há uma certa proximidade que nos aproxima todos, aqueles que vivem em situação de expatriação, vinculadas ao silêncio, ao olhar que reprova, ao choque cultural.”

    Com uma escrita que oscila entre o íntimo e o político, o livro "Antes que as palavras te esqueçam" devolve humanidade àqueles que a narrativa dominante insiste em silenciar.

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  • França e Brasil têm visão seletiva sobre religiões que devem ser 'punidas', diz especialista da laicidade
    Dec 9 2025
    A França celebra nesta terça-feira (9) os 120 anos da promulgação da lei da laicidade, que garante a separação entre Estado e religião. Mais que um conceito, no país, a laicidade é considerada um valor fundador da nação. Porém, segundo Marcelo Camurça, professor titular do Programa de Pós-graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, a laicidade vivida hoje na França difere muito da lei de 1905. “Os estudiosos da laicidade na França observam que a concepção atual descaracteriza a lei de 1905”, afirma o especialista, que é membro do Comitê de Laicidade e Democracia da Associação Brasileira de Antropologia e também do Groupe Société, Religion et Cité da École Pratique des Hautes Études. “A laicidade na França, na lei de 1905, era restrita à esfera pública estatal. Depois, ao longo dos anos, a partir da década de 1990, foi estendida à sociedade, muitas vezes usada para restringir a diversidade religiosa e as religiões trazidas pelos imigrantes, como o Islã, que gera muita controvérsia no país”, explica. Camurça destaca que existe uma influência indireta do modelo francês de laicidade no Brasil. O conceito chegou ao país em 1891, com a República e a Constituição Republicana. “Houve uma influência da ideia iluminista de promoção dos direitos humanos, da liberdade de crença e do incentivo à escola pública, em detrimento das escolas religiosas católicas. Então, eu acho que o meu argumento central é que os dilemas da laicidade na França e no Brasil correspondem a situações equivalentes, mas também inversas, que se comunicam”, analisa. Brasil: privilégios às igrejas cristãs católica e evangélica De acordo com Camurça, no Brasil, a noção de separação entre Estado e Igreja é ampliada para incluir a religião dentro da laicidade. Essa definição “flexível” ou não ateia “visa garantir privilégios às igrejas cristãs católica e evangélica, principalmente nos seus segmentos mais conservadores, e restringir a presença pública das religiões afro-brasileiras”, sublinha. “Na França – e na Europa em geral –, por ser uma sociedade mais secularizada, a experiência legal da laicidade implica que a religião não apareça ostensivamente na política”, diz. “Mas o regime da laicidade, muitas vezes, é invocado pela direita e pela extrema direita para, a partir dessas separações rígidas e restritivas, proibir o uso de símbolos religiosos na sociedade”, completa. O pesquisador cita o exemplo do ex-candidato à presidência e jornalista Éric Zemmour, que defende uma “laicidade cultural” inspirada nos “valores do cristianismo”. “É claro que a religião deve ter manifestação pública, mas ela não pode ser instrumentalizada. Nós não podemos aplicar à saúde, à educação e à legislação critérios religiosos, sob pena de nos aproximarmos de uma teocracia e não de uma democracia”, afirma. Para ele, em ambos os países se constata “uma certa visão seletiva sobre quais religiões devem ser alvo de desconfiança e ação punitiva: os muçulmanos na França e as religiões afro-brasileiras no Brasil”. Pautas morais Os direitos reprodutivos e sexuais são exemplos das diferenças entre França e Brasil em matéria de separação entre Estado e religião. Enquanto no primeiro o direito ao aborto foi inscrito na Constituição, no segundo, grupos religiosos travam a evolução dessas questões, e os direitos adquiridos são constantemente ameaçados. “A França, por ser uma sociedade secularizada, embora historicamente sob influência do catolicismo, instituiu o direito ao aborto já nos anos 1970. E no Brasil, por ser uma sociedade ainda com uma influência cristã conservadora muito grande, essas restrições se estabelecem, inclusive na própria sociedade”, diz. “E mesmo aqueles católicos que têm uma visão mais aberta no social, nessa parte dos direitos reprodutivos, são mais conservadores.” Para Camurça, o conservadorismo no Brasil sempre existiu, mas de forma disfarçada; atualmente, esse discurso é explícito, por meio da chamada pauta moral dos evangélicos. “Então, a questão é que está havendo um retrocesso”, afirma. “A diferença, eu acho, é que antigamente, no caso da Igreja Católica, ela agia mais por meio de lobbies. Ela não atuava diretamente na política. E, a partir dos anos 1990, os evangélicos passaram de uma atitude de que ‘crente não se mete em política’ para intervir diretamente na política, elegendo parlamentares tanto na esfera municipal quanto na estadual e federal, para ocupar espaços políticos e impor essa pauta moral na educação, na saúde e na legislação”, analisa o especialista. Ele ressalta que a marca da laicidade “é uma autonomia pedagógica, científica e jurídico-normativa, que são critérios para o bem comum da sociedade, baseados na ciência, na pedagogia e nas leis, e não em ...
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  • 'Câmera é um novo arco e flecha', explica Edgar Xakriabá ao lançar fotolivro em Paris
    Dec 8 2025

    O fotógrafo Edgar Kanaykõ Xakriabá, do povo Xakriabá (Minas Gerais), relançou o fotolivro Hêmba (Fotô Editorial, 2023) no Espace Frans Krajcberg, em Paris, no dia 19 de novembro. O livro é uma extensa investigação sobre o significado da imagem vista por uma cultura munida de seus próprios cânones.

    Patrícia Moribe, em Paris

    “O fotolivro se chama Hêmba, que na nossa língua Akêm Xakriabá quer dizer tanto imagem, alma ou espírito”, explica o artista. Ou seja, uma fotografia. Ele destaca que esse conceito – de que a imagem não está separada do corpo e do espírito – é compartilhado por diversos povos indígenas no Brasil.

    A fotografia como "novo arco e flecha"

    A trajetória de Edgar com a imagem se intensificou após seu ingresso na universidade, estudando antropologia visual, mas começou em seu próprio território. Segundo ele, embora as pinturas corporais já fossem uma forma de expressar a imagem, a chegada da tecnologia inicialmente representou um risco. Entretanto, essa percepção se transformou em estratégia de resistência.

    “Percebemos que a câmera, a tecnologia de modo geral chegando nos territórios, era também um perigo e discutimos como a gente poderia transformar esse perigo em instrumento de luta”, relata. “Eu costumo dizer: a câmera para nós é nosso novo arco e flecha”.

    Sua produção fotográfica e imagética está amplamente pautada no registro do movimento indígena no Brasil e das festas e rituais no território Xakriabá.

    A luta por territórios e telas

    A presença de sua obra em eventos internacionais, como a feira Paris Photo e o lançamento no Espace Frans Krajcberg, é definida pelo artista como parte de uma luta mais ampla, que vai além da demarcação física. Segundo Edgar, trata-se de “uma disputa por território”.

    Essa disputa envolve ocupar espaços de visibilidade para divulgar o ponto de vista indígena sobre o mundo. O fotógrafo insiste na necessidade de marcar presença nos meios artísticos, como evidencia a citação do líder Ailton Krenak:

    “Além de a gente lutar para poder marcar terras, a gente luta para poder marcar telas, as telas das artes, do cinema, da arte de modo geral”.

    Reivindicações territoriais Xakriabá

    O povo Xakriabá enfrentou historicamente intensas lutas contra missões religiosas, a proibição de sua língua e rituais, além da exploração agropecuária antiga e persistente. A demarcação de seu território ocorreu apenas após a chacina de 1988, que vitimou várias lideranças.

    Apesar da conquista histórica, Edgar esclarece que ela foi insuficiente, tornando a ampliação territorial a principal reivindicação atual de seu povo. “Nem um terço do que nos é de direito foi demarcado [em 1988]”. Eles ainda lutam “pela ampliação do território, principalmente para chegar à margem do rio São Francisco”.

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  • 'Clandestinos': saga de um brasileiro no deserto do México para imigrar aos EUA é contada em livro
    Dec 4 2025
    O que você seria capaz de fazer em busca do sonho de imigrar para outro país? O brasileiro Cleidson Vieira da Silva arriscou uma travessia de 360 quilômetros pelo deserto do México para tentar chegar aos Estados Unidos. Essa aventura ele decidiu contar no livro Clandestinos, publicado em português e francês. Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris. A obra relata a jornada de um casal que enfrentou prisão e percorreu mais de 4 mil quilômetros, partindo da Guatemala até Tucson, no Arizona, onde foram capturados e depois deportados. Nascido na Bahia e criado em uma favela de São Paulo, Cleidson já vivia com a esposa, Cláudia, em Portugal quando resolveu tentar a sorte nos Estados Unidos. Mas nem tudo saiu como planejado. “Um amigo me convidou para ir para os Estados Unidos. Naquela época, era extremamente difícil para alguém sem condições financeiras conseguir um visto. Ele sugeriu que fizéssemos a famosa travessia pelo deserto entre o México e os Estados Unidos. Acertamos tudo: ele pagaria a passagem. Então me orientou: vá para a Guatemala, que de lá conseguimos levá-los até Sonora, na fronteira”, conta. A travessia era extremamente perigosa. Cleidson admite que não tinha noção dos riscos envolvidos. “Para ser sincero, eu não imaginava o nível de perigo que corremos. Sobretudo quando penso que minha esposa tinha feito uma cirurgia no coração. Se algo tivesse acontecido com ela, poderia ter morrido no deserto”, lamenta. Um dos momentos mais difíceis foi quando se perderam. “Numa noite, a polícia apareceu. Todo mundo saiu correndo. Quando percebi, não a enxergava mais. Os óculos dela caíram no chão e, naquele momento, foi desesperador. Aquilo me sufocou por dentro. Acho que foi a pior sensação da minha vida”, acrescenta. No deserto, enfrentaram temperaturas de 44 °C durante o dia e muito frio à noite. Sem água e com pouca comida, o grupo precisou se aquecer juntos. “Deitamos para descansar um pouco. Éramos quatro pessoas. Fazia tanto frio que tivemos que nos encostar uns nos outros. Sentíamos o corpo tremer”, lembra. Ao chegar aos Estados Unidos, decidiram se entregar às autoridades. “O plano era chegar a um caminhão-pipa, que nos levaria até Phoenix e, depois, um carro nos levaria ao Mississippi. Mas, quando chegamos à montanha, não havia ninguém. Ficamos ali praticamente um dia inteiro. À noite, vi luzes cintilantes ao longe e fiz um pacto com ela: daqui para frente, a gente se entrega. Já estávamos ali havia um mês. Em Tucson, numa cidade deserta típica de filme, vimos um carro da polícia. Ele deu marcha à ré e pediu para pararmos. Ali acabou o famoso American Dream”, relata. Deportação para o Brasil Antes da deportação para o Brasil, passaram um mês na prisão. “Enquanto alguém não assinasse a deportação, eu não poderia sair. Ficamos 30 dias presos”, conta. A decisão de transformar a experiência em livro só veio depois que o casal já estava estabelecido na França. “Vivo há 15 anos na França e morei cinco anos em Portugal. Sempre trabalhei em obras. Um dia, minha esposa disse: ‘Você tem uma história incrível e chegou a um lugar bacana. Você é da comunicação’. Aquilo ficou na minha mente. Em algum momento, pensei: é isso mesmo”, explica. Além de exorcizar fantasmas internos, o livro também alerta quem pensa em fazer essa travessia ilegal. “A ideia é servir como voz para muitos que já passaram por isso e não têm coragem de contar, ou evitar que outros corram os mesmos riscos”, afirma o autor. A obra também narra como Cleidson e Cláudia recomeçaram a vida na França. “Só estou aqui em Paris porque precisei pagar a dívida de US$ 10 mil. Voltei para Portugal em 2009, 2010, quando houve uma grande crise. Alguém me sugeriu vir para a França. Vim porque estava com dificuldade para pagar essa dívida. A empresa francesa para a qual prestávamos serviço junto a uma empresa portuguesa me convidou para trabalhar, e estamos aqui há 15 anos”, comemora. A tentativa de entrar nos Estados Unidos aconteceu em 2007, durante o governo do republicano George Bush. Questionado sobre a política de caça aos imigrantes não documentados na presidência de outro republicano, Donald Trump, o autor lamenta: “Isso é bem complicado. Conheci muitas pessoas nos Estados Unidos, na prisão, cujas famílias inteiras estavam ali. As fronteiras foram fechadas para impedir a passagem dessas pessoas. Senti isso na pele. Acho bem complexa essa ideia de fechar tudo. Tenho as três raças que formam o Brasil: sou descendente de indígenas, negros e portugueses. Somos uma mistura muito grande”, conclui. A versão em português do livro foi publicada pela editora "Primeiro Capítulo" e em francês pela editora "Témoigne".
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  • Francesa Fabienne Magnant une violão clássico brasileiro, viola caipira e flamenco em novo álbum
    Dec 3 2025

    “Cordas Sensíveis” é o quinto álbum da musicista e compositora francesa Fabienne Magnant. No novo álbum, lançado em novembro e disponível nas principais plataformas de streaming, ela explora os ritmos e sonoridades de suas grandes paixões: o violão clássico brasileiro, a viola caipira e a guitarra flamenca.

    Nas 16 faixas do disco, ela alterna composições autorais, interpretações do repertório flamenco, como Fuente y Caudal de Paco de Lucía, e vários clássicos brasileiros como Asa Branca de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e Canto de Ossanha, de Baden Powell, um de seus maiores ídolos, cujo encontro em sua primeira viagem ao Brasil, em 1993, no Rio de Janeiro, ampliou os seus horizontes musicais.

    “Depois de um show dele, falamos sobre os ritmos, as melodias brasileiras, o choro. Ele me mostrou caminho da música popular brasileira”, resumiu.

    Egberto Gismonti e o violeiro, pesquisador e compositor Ivan Villela também fazem parte de suas referências artísticas do país. “É uma música próxima do meu coração”, afirma.

    Peregrinações musicais

    “Cordas Sensíveis” é resultado também de dez anos de peregrinações por vários países e de encontros com músicos franceses e brasileiros como o violeiro Ricardo Vignini, a cantora Consuelo de Paula e o percussionista André Rass.

    As gravações das canções foram feitas em estúdios em São Paulo e também em Paris, onde Fabienne Magnant contou com o talento do guitarrista Dominique Mizeau, o percussionista francês François Kokelaere, a japonesa Akiko Horii e o clarinetista Samuel Thézé, entre outros artistas.

    “Eu adoro a técnica clássica, a sofisticada e a popular também. A ideia foi fazer essa mistura e a experiência desse álbum foi incrível”, afirma.

    O show que marca o lançamento do álbum será em Paris, no dia 4 de dezembro, mas Fabienne também já tem concertos agendados para 2026 no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo.

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  • Jacque Falcheti encerra um ano de mais de 200 shows com turnê intimista pela Europa
    Nov 28 2025

    A cantora, compositora e violonista paulista Jacque Falcheti se prepara para fechar o ano de 2025 com um marco na carreira: mais de 200 shows realizados em diversos países e continentes. Ela segue em turnê pela Europa neste fim de ano, apresentando as canções de seu sexto álbum autoral, “Crua”. No espetáculo, de formato minimalista e intimista, Jacque se conecta com o público sentada em um banquinho, soltando a voz afinada, acompanhada de seu violão.

    Adriana Moysés, da RFI, em Paris

    “É um encontro comigo mesma”, diz a artista, que transforma experiências pessoais em canções sobre solidão, amor, decepção, o ser mulher em constante movimentação. “Não consigo separar a Jacque que toma café da manhã da Jacque que está no palco. É tudo muito confessional”, explica a cantora, satisfeita com o fato de compartilhar com o público suas próprias composições.

    A conexão com espectadores de culturas variadas se dá pela entrega da artista, que, sentada num banquinho, solta a voz e transporta o público para seu universo de histórias ilustradas por ritmos da MPB. Em um livro que publicou sob o título "Crua", Jacque revela ainda mais de si. “Quem lê, me conhece profundamente. É estar nua e crua. Acho que isso conecta, porque quando alguém percebe essa entrega, também se permite se expor.”

    Em turnê pela Europa, Jacque não se limita à melodia para conquistar plateias. “Meu show é cheio de histórias. Quando estava na Espanha, falava em espanhol; na Inglaterra, em inglês. Aqui na França, conto um pouco da inspiração de cada música.” Uma delas nasceu da história de uma velejadora que cruzou o Atlântico. “Pergunto ao público: quando temos um sonho, é perigoso, porque ou arriscamos tudo para realizá-lo ou vamos morrendo aos poucos por dentro.” Depois, ela canta. “Mesmo sem entender a letra, as pessoas viajam pelo mesmo sentimento.”

    Para Jacque, a música é universal. “Quando eu era adolescente, chorava ouvindo músicas em inglês sem entender nada. A música tem esse poder.”

    A carreira internacional começou em 2015, graças a um edital do Ministério da Cultura. “Vim para a Itália, depois Portugal e França. Gravei meu primeiro álbum numa residência artística em Portugal.” Desde então, ela divide a vida entre o Brasil e a Europa, ajustando a agenda às estações. “Meus shows são intimistas, então prefiro o outono e o inverno europeus.”

    Hoje, Jacque trabalha com produtoras na Espanha, Inglaterra e França. “Fui criando vínculos, fazendo contatos. É bonito: tenho amigos espalhados pelo mundo. Mas isso também muda a saudade: para matar, preciso estar em vários lugares.”

    Próximos passos: um álbum nômade

    Depois de mais de 200 shows com “Crua”, Jaque planeja uma pausa para compor. “Quero falar dos três anos que vivi como nômade. Fiz músicas na Itália, Estônia, Barcelona, Lisboa, em Recife. Será como um livro de histórias.” O projeto inclui parcerias internacionais. “Quero respirar e pensar sobre o que quero dizer nas próximas canções.”

    Enquanto isso, ela segue na estrada com seu violão desmontável — invenção que cabe numa mala de mão — e uma caixinha de fósforos que vira instrumento de percussão. “É minha forma de levar o Brasil comigo.”

    Agenda francesa: 27 e 28 em Vallée de la Drôme, 29 em Lyon, antes de seguir para Bruxelas, Amsterdã e Roterdã. Depois, silêncio criativo.

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