Épisodes

  • Gregorio Graziosi revisita a paixão do curta e celebra inovação como jurado em Clermont-Ferrand
    Feb 4 2026
    O diretor, roteirista e ator brasileiro Gregorio Graziosi vive dias de entusiasmo intenso diante do que descreve como uma das mostras mais radicais e instigantes da Europa. Membro do júri da competição Labo, dedicada a filmes inovadores no Festival de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, ele participa da celebração dos 25 anos da seção em um momento que considera um ponto de virada na forma de pensar o cinema. Graziosi descreve a Labo como um espaço que procura curtas de vanguarda, “filmes que conseguem narrar com imagem e som de uma maneira muito particular”. Para ele, participar do júri tem sido uma experiência transformadora, sobretudo por testemunhar a resposta do público nas salas lotadas. “Você sente no silêncio da sala. Percebe hesitações, gargalhadas, a sensação de medo ou surpresa. Isso é mágico”, afirma. Ele lembra que, após a pandemia, muitos espectadores se habituaram a ver filmes sozinhos, o que torna ainda mais impressionante ver sessões esgotadas. “As pessoas enfrentam as adversidades climáticas para lotar sessões”, comenta. Para Graziosi, assistir aos filmes junto ao público é parte fundamental da criação. “Existe uma questão física, independentemente de como os filmes foram captados, de como eles vão tocar a alma humana – isso não tem preço”. Essa comunhão na sala escura, diz ele, é o que torna tão especial sua participação no júri. Entre os 24 filmes selecionados, metade documentários, Graziosi destaca a relevância crescente de uma nova fronteira narrativa: a inteligência artificial. O tema, afirma, exige debate aprofundado. “Esse ano tem um ponto de virada, que é a questão do uso da inteligência artificial para a criação dos filmes. Isso é algo que preciso debater com os outros jurados e que vamos conversar muito nos próximos anos.” Ainda assim, ele insiste que a tecnologia jamais substituirá o essencial: “Independente da ferramenta, o mais importante é a narrativa – o que você quer dizer e como isso impacta o público.” O poder do curta: paixão como ponto de partida Antes de dirigir longas, Graziosi construiu carreira sólida nos curtas, entre 2007 e 2012. “O curta-metragem é um formato independente. A paixão é o principal ponto de criação. Quem acompanha o festival sente isso. A paixão dos diretores contagia o público, a equipe, está na tela.” Ser convidado para o júri tem sabor de reencontro. Graziosi já exibiu dois filmes na Labo e viveu ali experiências definidoras: “Lembro da emoção que tive quando fui selecionado pela primeira vez e do impacto de perceber que tinha oito exibições de um curta. O curta não era uma coisa à parte, era o principal. Isso é emocionante.” Ele também recorda com carinho o filme feito para a banda inglesa Tindersticks, encomendado justamente pelo festival – laço que intensificou a sensação de “casa” ao voltar como jurado. O cineasta trabalha atualmente em seu terceiro longa, “O Demônio na Fábrica”, desenvolvido em residência da Cinéfondation do Festival de Cannes. A partir de uma revisão de materiais antigos – curtas, videoclipes, filmes inacabados –, ele percebeu que já vinha elaborando, fragmento a fragmento, um novo projeto. Dessa constatação surgiu outro filme: um longa intimista, centrado numa casa. “É um filme que poderia ter sido meu primeiro, mas precisava de mais maturidade emocional. Às vezes os projetos mais simples exigem mais coragem, porque você precisa colocar o coração na tela.” Rodado integralmente numa única locação, o longa explora tempo, espaço e memória: “É um filme de escala menor, mas que tem muito coração. Estou apaixonado por fazer.” A experiência como ator em “O Agente Secreto” Além de diretor, Graziosi fez parte do elenco de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho – indicado a quatro Oscars. Ele comenta com admiração a forma como o cineasta pernambucano dirige atores. “Ver o Kleber trabalhando no set é mágico. Ele é um maestro, (...) cria um tema e improvisa como um músico de jazz. O resultado é incrível.” Em Clermont-Ferrand, Graziosi foi surpreendido ao ser apresentado ao público, inicialmente, como ator – embora seus filmes tenham sido exibidos ali como diretor. Ele recebeu a situação com bom humor e alegria. “Sou fã do Kleber. Estou torcendo para que ele receba todos os prêmios do Oscar. Vou ficar orgulhosíssimo como alguém que participou do filme e como apaixonado por cinema brasileiro.” Filme brasileiro em competição Sem poder emitir opinião como jurado, Graziosi comenta apenas a reação da plateia ao curta brasileiro “O Rio de Janeiro Continua Lindo”, de Felipe Casanova, que concorre na mostra Labo. “Foi o filme mais aplaudido. Lida com uma injustiça violentíssima, é de partir o coração. O público teve uma emoção muito forte.” Graziosi diz que não se surpreenderia se o filme conquistasse um ...
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  • Curta 'Mira' da cineasta paulista Daniella Saba disputa prêmio em competição oficial na França
    Feb 3 2026

    Filmes de quatro cineastas brasileiros disputam prêmios no Festival de Curtas-Metragens de Clermont- Ferrant, que acontece até sábado (7) no centro da França. A paulista Daniella Saba é a única mulher do grupo de contemplados. Ela concorre com o curta-metragem “Mira”, uma produção francesa integralmente filmada no Brasil e que foi selecionada para a competição nacional, ao lado de outros 50 filmes franceses.

    “Mira” acompanha a história de uma menina de 14 anos que cresceu em uma área de descanso de caminhoneiros. Criada entre motoristas, ela sempre sonhou em dirigir caminhão. Mas a chegada da adolescência transforma a forma como ela é vista naquele ambiente majoritariamente masculino. Segundo Saba, “ela vai entender o que significa ser mulher num espaço que não é reservado a nós, mulheres”. A diretora conta que quis explorar esse momento de ruptura: a passagem da infância à adolescência num espaço onde o corpo feminino passa a ser observado de outra maneira.

    Radicada na França há 16 anos, Saba comemora a primeira seleção de um filme seu em uma mostra competitiva. “É uma honra, porque é um dos festivais de curta mais importantes do mundo, então é um reconhecimento. Só a seleção para mim já é um prêmio”, afirma. Para a realizadora e roteirista, estar em Clermont-Ferrand é também uma oportunidade de continuidade profissional: “É uma vitrine, uma forma da gente continuar trabalhando e dar continuidade para esse trabalho que foi feito, que no caso é o ‘Mira’, e que agora vai virar outros filmes no futuro.”

    A diretora explica que festivais funcionam como porta de entrada para novos projetos, especialmente para realizadores de curta-metragem. “O festival acaba sendo o lugar onde a gente mostra o nosso trabalho. Quando a gente faz um compromisso para trabalhar num longa, são muitos anos trabalhando no mesmo projeto”, observa.

    Longa-metragem no sertão de Alagoas

    Além da promoção de “Mira”, Daniella Saba está atualmente dedicada ao desenvolvimento de seu primeiro longa-metragem, uma coprodução franco-brasileira. “A gente já tem o roteiro, ele está no final da captação de recursos. É um filme que é necessariamente filmado no Brasil”, explica. O longa será um road movie sobre uma mulher francesa que acompanha o ex-marido em uma viagem pelo sertão de Alagoas na busca por sua família biológica após uma adoção ilegal. “É uma comédia dramática”, resume.

    A cineasta também comenta as condições de financiamento nos dois países onde atua. Ela destaca que “Mira” contou com ajuda regional francesa, mas não recebeu apoio brasileiro. Ainda assim, enfatiza a importância de políticas públicas no setor: “É muito importante a gente poder desenvolver os curtas-metragens. Dá uma possibilidade desses filmes existirem, até para propulsar a nossa produção para os longas-metragens também.” Para Saba, o interesse internacional por obras brasileiras está em alta: “A gente tem uma cultura muito forte, a gente tem um olhar muito singular e eu acho que eles se interessam.”

    Especialista em ficção, a diretora também fala de sua relação com o gênero: “Eu adoro trabalhar os diálogos, adoro trabalhar o universo dos personagens. Na minha filmografia tem um documentário, mas a minha especialidade é a ficção.”

    Desigualdades persistentes para mulheres cineastas

    Sobre a presença feminina no cinema, Daniella Saba considera a desigualdade gritante: “Uma mulher cineasta tem muito mais dificuldade. Quando a gente lê os relatórios, com os números, com os gráficos, é incomparável.” Segundo a diretora, apenas uma parcela muito pequena das produções tem mulheres no comando. “A gente ainda tem muito trabalho pela frente como cineasta.”

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  • 'Democratizar o acesso é um dos principais desafios para tratar o câncer no Brasil', diz oncologista
    Feb 2 2026

    Nesta quarta-feira (4) é comemorado o Dia Mundial de Luta contra o Câncer, doença que cresce em todas as faixas etárias e atinge cada vez mais jovens. A incidência de novos casos pode chegar a cerca de 35 milhões de pessoas em 2050, um aumento de aproximadamente 77%, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

    Apesar do crescimento da doença, o câncer deixou há algum tempo de ser uma sentença de morte, diz o oncologista clínico Thiago Kaike, do Hospital Mater Dei, em Salvador.

    Segundo ele, com os novos tratamentos e diagnósticos cada vez mais precoces, hoje o paciente diagnosticado com um câncer tem maior possibilidade de remissão e cura, em função do acesso aos tratamentos. Mas é preciso democratizar o atendimento no Brasil, ressalta o especialista.

    “A oncologia vem evoluindo e todos os dias saem novos estudos, mas a gente tem uma discrepância entre o atendimento no hospital público e no privado e um abismo entre os pacientes atendidos nos dois sistemas.”

    De acordo com ele, é preciso também possibilitar o acesso – hoje concentrado nas capitais – aos pacientes que residem no interior. A luta contra a desinformação, que prejudica os pacientes, é outra prioridade.

    “Hoje as fake news são uma grande rival. O que percebemos é que o paciente oncológico se sente vulnerável, e percebemos que as pessoas agem de má-fé, explorando essa fragilidade. Isso é muito cruel”, ressalta.

    Ouça a entrevista completa clicando no player.

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  • Elogiado pela crítica, Diogo Strausz lança 'Dance para se Salvar' no New Morning
    Jan 29 2026

    Produtor, DJ e multi-instrumentista carioca, Diogo Strausz tornou-se, nos últimos anos, um dos nomes mais comentados da cena groove franco-brasileira. Seu novo álbum, “Dance para se Salvar”, lançado pela francesa Favorite Recordings, já vinha cercado de entusiasmo da crítica especializada, que destaca a fusão de disco-funk brasileiro com música eletrônica em arranjos luminosos.

    Críticos descrevem o disco como um “retrato coerente”, “ensolarado” e “movido por uma filosofia da dança como gesto vital”. O show de lançamento no mítico New Morning, em Paris, onde Strausz se apresenta no dia 31 de janeiro, reforça seu bom momento – a própria sala o define como “uma das figuras mais criativas da cena groove internacional”.

    O álbum, reconhecido por sua alma “quente” e “polida”, fruto do uso de fita analógica e equipamentos vintage, impõe o desafio de levar esse universo ao palco. A RFI perguntou a Strausz como isso se transforma ao vivo.

    “É a diferença entre a fantasia e a realidade. Cada escolha que você faz em estúdio, em algum momento você quer ver aquilo ser dividido com um número grande de pessoas e você quer transformar aquilo num momento de coletividade”, diz, explicando que será acompanhado por uma banda no palco, diferente do formato solo que fez com frequência até agora. “Seremos seis músicos no palco. A gente está formatando um show superespecial só para essa ocasião”, conta o multi-instrumentista. Ele dividirá a cena com músicos dos grupos Aldorande, Gin Tonic Orchestra, Jéroboam e a cantora Gabriella Lima.

    O conceito da dança como resistência

    A crítica internacional destacou o caráter filosófico do álbum, visto como um “manifesto de sobrevivência” e uma ode ao movimento como cura coletiva. Quando perguntado sobre quando essa ideia virou o eixo do disco, Strausz disse: “Acho que a partir do momento em que a gente se percebe virando consumidores zumbis na atual conjuntura (...), acho que o dançar é um gesto de recuperação desse presente, da nossa consciência do corpo.”

    A França como impulso

    Strausz começou a fazer música aos 4 anos de idade. “Acho que era uma fuga para mim de qualquer situação desconfortável.” Sobre o que tem ouvido ultimamente, ele cita os últimos discos de Zeca Veloso, Dora Morelenbau e as criações do produtor francês de funk carioca Weal Starcks.

    A crítica francesa apresenta o carioca como renovador da estética groove e ponte entre cenas. Perguntamos o que a França lhe deu de diferente: “A estrutura de suporte à cultura que existe aqui te dá um tônus e um eixo para você botar uma fé em si próprio. (…) Ter me tornado 'intermittent du spectacle' foi uma coisa que me deu uma coragem para apostar em mim mesmo que eu nunca tinha tido antes.”

    Strausz se refere a um sistema de apoio a artistas e técnicos do espetáculo em que o Estado francês garante uma remuneração aos cotistas durante o período de criação e produção, não apenas quando estão em cena. Segundo ele, “isso pode ter definido a minha carreira. Provavelmente definiu o lugar que eu estou hoje.”

    Com o álbum recém-lançado na França, elogiado como um tributo contemporâneo ao disco-funk dos anos 70-80 e celebrado por sua energia dançante e detalhismo sonoro, Strausz diz estar totalmente concentrado nas próximas turnês.

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  • Artista brasileira Laura Lima abre sua maior exposição solo em Londres
    Jan 27 2026
    Artista visual mineira Laura Lima abre sua maior exposição solo no Instituto de Arte Contemporânea em Londres com obras jamais vistas em três décadas de carreira. The Drawing Drawing instiga o público a questionar normas, expectativas, espaço e tempo ao interagir com suas obras. Yula Rocha, correspondente da RFI em Londres Para Laura Lima, arte é movimento, e assim começa a entrevista, com a artista de costas, sentada em uma plataforma giratória. A mineira de Governador Valadares, que já foi dançarina, explica que o título la mostra, que ocupa dois andares do Instituto de Arte Contemporânea, com trabalho comissionado especialmente para o espaço, pode ser traduzido em português como "Desenho em Desenho", "Desenho sobre Desenho", mas também como "Desenho Desenhando", reforçando essa ideia de movimento. A primeira reação ao entrar na exposição é perceber que há uma pessoa nua na sala - um modelo vivo profissional - deitada em uma das plataformas redondas de madeira que se movem suavemente em todas as direções. Mas como toda instalação de Laura Lima, o público não está aqui apenas para observar ou participar de uma aula tradicional de modelo vivo. A brasileira desconstrói essa prática artística do século dezesseis ao nos convidar a ocupar outras plataformas rotatórias. Cada uma tem um banco de madeira, um cavalete e material artístico à disposição para desenhar o modelo nu presente na sala. “Tem uma coisa só distinta: não só o modelo pode estar virado para qualquer direção como também aquele que o desenha. E aí a gente se pergunta - esse que desenha, ele foca? Foca em quê se tudo se move? Que tipo de perspectiva ele vai construir no seu desenho? O desenho pode ser um instrumento de autêntica radicalidade”, explica a artista à RFI. Os desenhos do público podem ser levados para casa ou colocados em uma caixa na galeria para depois serem expostos no corredor central do Instituto de Arte Contemporânea (ICA). O centro cultural, com salas de cinema e áreas de exposição, fica em um endereço central de Londres, o Mall, que liga o Palácio de Buckingham a Trafalgar Square. O ICA nasceu em 1948 dedicado à arte experimental na capital britânica. Francis Bacon, Pablo Picasso e Steve McQueen já apresentaram suas obras nesse mesmo espaço hoje ocupado pela brasileira convidada pela curadora do Instituto a montar essa exposição. “Esse é um lugar absorvente de uma certa experimentação que sempre é necessária, porque mesmo artistas clássicos já propunham coisas interessantes", analisa. "Essa é uma instituição que passou a ser um histórico de radicalidade. Eu ouvi dizer que o ICA foi criado em contraposição aos processos trabalhados na Royal Academy. Eu fui lá olhar uma aula de desenho, ver a forma como eles trabalhavam para poder me inspirar a fazer alguma coisa aqui”, relata. Londres não foi inspiração para tudo. Laura Lima traz para a cidade materiais já vistos no Brasil, em Barcelona, na Espanha e em Nova York. De seu Balé Literal, está presente um grande para-sol vermelho dançante de cabeça para baixo movido por controle remoto e acompanhado de artistas - ou trabalhos vivos como ela se refere - que interagem com a obra. Para a mostra The Drawing Drawing, Laura resgata um projeto do início da carreira que nem o público brasileiro conhece. Em um grande freezer, há bandejas com imagens congeladas que, ao derreterem, se transformam e se revelam diante dos olhos do público. De novo, a ideia da arte em movimento é presente. “Uma pintura dentro de um museu também está em movimento, uma vez que uma pintura a óleo está se oxidando. A gente acha que as coisas são estanques, mas não são. Como então a gente mantém obras que são feitas de gelo? É claro que estou falando muito em movimento, isso está sempre no meu trabalho. Esse é quase um recado de que, apesar de tentar conter as coisas, é preciso sempre repensar que tipo de ética você constrói ao redor disso”, explica. Ao lado da geladeira, há uma obra do futuro, porque tempo também é movimento. Suspensa em frente a uma janela, onde vemos lá fora a vida passar, há uma instalação feita de um entrelaçado de matéria orgânica - linhas de algodão e pedaços de carvão. A obra tem data estimada para ser concluída - daqui a 58 anos! “Essa obra é de 2084. Aí o público pergunta, como assim, Laura, se estamos em 2026? Porque a obra é uma tecitura feita com algodão cru muito sensível com pedaços de carvão que vão tingindo esse tecido. Eu então retomo uma coisa tão tradicional que é a palavra em francês vernissage, ou seja, quando o pintor vai lá e diz que a obra está pronta e passa o verniz (na tela). É e aí eu digo que essa obra me parece que vai estar pronta em 2084.” Laura Lima nos convida a abraçar essas provocações e a entrar na dança da sua arte em movimento. The Drawing Drawing fica em cartaz no Instituto de Arte ...
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  • ‘Brasil é um paraíso de dados’: pesquisadora da USP fala em Paris sobre justiça e tecnologia
    Jan 26 2026
    A professora Maria Paula Bertran, da Faculdade de Direito da USP de Ribeirão Preto e pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da universidade, esteve na França como professora convidada da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris (EHESS). Em conversa com a RFI, ela comentou avanços recentes do Brasil em litígios no exterior, o papel da tecnologia no direito e suas pesquisas sobre grandes casos judiciais, como a Operação Lava Jato. Bertran destacou a decisão da Justiça britânica que rejeitou o pedido de recurso da mineradora BHP no caso da Barragem do Fundão, em Mariana, em 2015. A decisão abre caminho para o pagamento de bilhões de libras em indenizações a 620 mil requerentes do processo. Para ela, trata-se de uma “vitória dos seres humanos”, já que a justiça inglesa atribui um patamar mais elevado ao sofrimento das pessoas afetadas. Segundo a pesquisadora, “a quantificação dos danos em países centrais costuma reconhecer a gravidade do impacto com mais amplitude do que no Brasil”, o que explica o valor potencialmente maior das indenizações obtidas na Inglaterra. Brasil: um paraíso de dados Especialista em jurimetria — o uso de dados e estatística aplicados ao direito —, Bertran afirma que a tecnologia está alterando profundamente a própria natureza da ciência jurídica. “O que antes dependia apenas de argumentos e da capacidade de persuasão agora pode ser demonstrado e quantificado”, diz. “É uma transformação paradigmática”, completa. Nesse campo, ela considera que o Brasil está na vanguarda pela enorme disponibilidade de dados públicos. Bertrand define o Brasil como um “paraíso de dados”, analogia ao conceito de paraíso fiscal. Essa abundância de informações favorece diagnósticos mais precisos e decisões mais coerentes, mas também cria desafios, como “o aumento da litigância predatória”. A professora cita o exemplo das ações por atrasos e cancelamentos de voos. Se antes o passageiro avaliava individualmente seu próprio dano e decidia buscar ou não um advogado, hoje sistemas tecnológicos permitem que advogados acessem listas de passageiros e os contactem diretamente. Isso leva ao ingresso de ações em massa — mesmo por pessoas que nem sempre se sentiriam prejudicadas — e pressiona o Judiciário, que enfrenta volumes inéditos de processos. Apesar disso, Bertran considera que a transparência brasileira continua sendo um diferencial positivo. Escândalo do Banco Master “poderia ter sido evitado” A pesquisadora também esteve em Hamburgo, na Alemanha, para discutir a importância de bancos de dados judiciais públicos. Nesse contexto, comentou o caso recente envolvendo o Banco Master. Ela explica que sua equipe desenvolveu um “Índice de Litigância”, que relaciona o número de processos ao número de clientes, permitindo identificar comportamentos anormais.O Master aparecia entre os líderes de litigiosidade — especialmente como réu —, o que indicava sinais de alerta. Para Bertran, faltou atenção dos órgãos reguladores, como o Banco Central, que ainda não exploram plenamente o potencial dos dados públicos, ao contrário do Judiciário, mais aberto a essas ferramentas. Lava Jato refletiu a política brasileira Ao falar sobre a Operação Lava Jato, Bertran descreveu o trabalho de sua equipe com cerca de 1.200 réus envolvidos no caso. Iniciada em março de 2014, a Operação Lava Jato foi a maior investigação sobre corrupção realizada no Brasil e descobriu um megaesquema de corrupção na Petrobras envolvendo políticos de diferentes partidos e outras empresas públicas e privadas. Um dos resultados mais relevantes, segundo Bertrand, diz respeito à filiação partidária dos acusados. O levantamento revelou que o maior número de réus pertencia ao MDB, o maior partido brasileiro em número de filiados, e não ao PT, como frequentemente se supunha. Segundo a pesquisadora, há correspondência entre o tamanho dos partidos e o número de acusados, o que mostra que a Lava Jato refletia a estrutura política do país, com presença de todos os espectros partidários. "Mulheres são menos corruptas" Bertran também pesquisou o papel das mulheres na Lava Jato. Elas representaram menos de 15% dos réus, o que, segundo ela, confirma evidências da ciência de que “mulheres tendem a se envolver menos em corrupção”.Entre as poucas acusadas, a maioria ocupava posições subalternas — como secretárias, assistentes de doleiros ou laranjas — embora também houvesse figuras políticas. Esse recorte, afirma, expõe desigualdades de gênero na ocupação de posições de poder em países periféricos.
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  • 'Eldorado': Marcello Quintanilha lança thriller social ambientado na classe trabalhadora dos anos 50
    Jan 21 2026
    O quadrinista e escritor brasileiro Marcello Quintanilha lança na Europa seu novo álbum, “Eldorado”, publicado em francês pela editora belga Le Lombard. A obra retoma a trajetória do pai, Hélcio Carneiro Quintanilha, ex-jogador profissional de futebol em Niterói, tema que o autor já havia explorado em livros anteriores. “Eldorado” é um thriller neorrealista ambientado no Brasil entre as décadas de 1950 e 1970. A narrativa acompanha uma família modesta de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense: o caçula, Hélcio, sonha em seguir carreira no futebol, enquanto o irmão mais velho, Luiz Alberto, inicia um percurso de delinquência. O livro transforma essas vidas em um drama policial, familiar e político que entrelaça ficção e memória para retratar um país que se desenvolve marcado por extrema desigualdade. O álbum começa com uma sequência em preto e branco na qual Quintanilha reconstrói a formação da sociedade brasileira logo após o fim da escravidão, em 1888, e a Proclamação da República, no ano seguinte. O autor mostra como os africanos e seus descendentes, a força de trabalho que sustentou a economia agrária por séculos no Brasil, foram abandonados pelo novo Estado republicano, que, no início do século XX, optou por substituí-los por imigrantes europeus numa política deliberada de branqueamento. Com a industrialização tardia, em parte financiada pelo capital inglês, o futebol é introduzido no país – primeiro como esporte de ricos, depois apropriado pelas classes populares, sobretudo pela população negra e pobre. Esse movimento, considerado "revolucionário" por Quintanilha, transformou o futebol em expressão social e cultural, e em um dos eixos da identidade brasileira. Para Quintanilha, vencedor do troféu Fauve d’Or no Festival de Quadrinhos de Angoulême (2022) com o álbum “Escuta, Formosa Márcia”, revisitar esse percurso é essencial: “Para mim é sempre importante ter a perspectiva do passado, quais são os pontos que nos ligam com o passado, que têm efeito na nossa vida na atualidade.” Os personagens Hélcio e Luiz Alberto representam dois caminhos possíveis num Brasil desigual: o sonho do futebol e o desvio para a criminalidade. O autor conta que se inspirou na fábula do filho pródigo. “Seria um pouco como recriar essa fábula no seio da classe trabalhadora.” Segundo Quintanilha, Hélcio reproduz a história que trata do pai do escritor, fortemente ancorada na realidade, enquanto a do irmão é ficcional. “Toda a trama policial que a história tem, tudo isso é ficção. Mas espelhada no que foi a realidade do meu pai, o que acho fascinante.” Duque de Caxias imaginária O cenário é ambientado em Duque de Caxias, onde o pai de Quintanilha morou antes de se mudar com a família para Niterói, mas a cidade foi deliberadamente recriada pelo autor. A imagem nasceu das histórias ouvidas na infância. “Enquanto eu cresci, muitas vezes eu ouvia o meu pai contar as histórias do que ele via na cidade de Duque de Caxias, então eu criei uma Duque de Caxias imaginária na minha cabeça.” Sobre a linguagem visual, “Eldorado” traz um grafismo diferente dos livros anteriores. “A história determina a maneira como ela vai ser contada”, explica. A cada livro, ele busca técnicas e decupagens novas. “Cada novo livro é começar exatamente do zero, absolutamente do zero, o que me coloca sempre numa posição de estar sempre pisando em ovos, porque eu nunca sei exatamente qual é o terreno no qual estou me movendo.” E o desconforto vira potência. “O que, do ponto de vista artístico, eu acho muito instigante, porque te coloca numa posição de desconforto que pode ser muito interessante.” Acolhimento do público "Eldorado" é o romance gráfico mais longo do autor (272 páginas), publicado primeiro em francês, com tradução ainda por definir. O livro estará disponível nas livrarias em 30 de janeiro, com distribuição inicial na Bélgica, França, Suíça e no Canadá. Vivendo em Barcelona há vários anos, quando Quintanilha fala do interesse do público europeu pela sua obra, ele descreve uma relação intensa e acolhedora, em consonância com o Brasil. “Eu acho magnífico. Eu sinto exatamente a mesma coisa que eu sinto no Brasil”, afirma. “Eu acho o público sempre muito aberto, sempre muito interessado nas coisas que eu escrevo.” Mesmo quando escreve para leitores de fora, Quintanilha afirma que suas histórias permanecem ancoradas no Brasil – e que isso não impede a conexão. “Todas as minhas histórias estão baseadas na experiência que eu tenho no Brasil, na vida que eu conheci no Brasil, na cultura brasileira, todas as minhas referências vêm do Brasil, a maneira como eu concebo as personagens, a maneira como eu concebo a história (...) todas as dinâmicas fazem referência à cultura brasileira e à maneira como a ficção brasileira foi sendo desenvolvida no século XX.” O alcance ...
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  • Um ano de intimidação estratégica: como Donald Trump redefiniu a política externa dos EUA
    Jan 19 2026
    Nesta terça-feira (20) faz um ano que o presidente norte-americano, Donald Trump, retornou à Casa Branca, e as piores previsões sobre a virulência do republicano se confirmam. Em 12 meses, ele redesenhou a política externa dos Estados Unidos com o retorno do uso explícito da força, o resgate de práticas intervencionistas e uma estratégia de intimidação permanente – inclusive contra aliados. Em entrevista à RFI, o professor Antonio Jorge Ramalho da Rocha, do Instituto de Relações Internacionais (IREL) da UnB, analisa esse primeiro ano do segundo mandato de Trump e afirma que há método por trás do caos. O método da desestabilização é, segundo o especialista da Universidade de Brasília, a chave para compreender o comportamento de Trump. “Sim, há um método nesse processo e a lógica é de desestabilização”, resume Antonio Jorge Ramalho. O objetivo é manter todos – governos estrangeiros, atores econômicos e até aliados – “sempre na defensiva e divididos”, o que inviabiliza qualquer articulação consistente para conter os movimentos do governo americano. Não se trata de uma estratégia de longa duração, afirma: “Não há uma visão de mundo por trás disso. É um processo de atuação tático”. O bombardeio contínuo de fatos e informações constitui a engrenagem central dessa tática. “Trump cria uma grande quantidade de informações, de fatos, de possibilidades, que obriga as pessoas a pararem tudo o que estão fazendo para reagir.” Nesse processo de saturação, ele consegue impor sua agenda de curto prazo. “Pode ser desde fechar um negócio para a família, conseguir um presente milionário, movimentar os mercados – anuncia uma coisa de manhã e as ações caem; à tarde anuncia outra e elas sobem. Tudo isso permeado por ​​​​inside information”, afirma o professor, que descreve o método como “pressão permanente com objetivos discretos, transacionais e imediatos”. “Ele circula para quem lhe financiou a campanha ou por seus próprios braços no mercado financeiro, e faz dinheiro com isso.” Convicções profundas, mas sem estratégia de longo prazo O professor identifica, no entanto, dois pilares ideológicos que sustentam essas ações. O primeiro é a concepção de poder sem limites. “Ele tem a convicção de que o poder deve ser exercido sem freios e sem cerimônias”, afirma. Para Trump, a ampla capacidade militar, econômica e política dos Estados Unidos deve servir ao engrandecimento nacional – “mas não pelo país em si”. Trata-se de proteger e ampliar os interesses da parcela da sociedade “que dá as cartas”, e que sustenta politicamente o republicano. O segundo pilar é a crença nas tarifas como instrumento central de política externa, herança de um pensamento mercantilista anacrônico. “É uma visão do século 19 em curso no século 21”, diz Antonio Jorge Ramalho. A imposição de tarifas seria, na visão trumpista, uma forma de aquisição de riqueza e poder. Mas, apesar de fornecer ganhos imediatos, produzirá efeitos negativos. “Vai reduzir no longo prazo o comércio e a eficiência da economia americana e global.” Ainda assim, o curto prazo se impõe: “Ele consegue retornos palpáveis, e é isso que o orienta.” América Latina e a intervenção na Venezuela O sequestro do venezuelano Nicolás Maduro por militares americanos, nos primeiros dias do ano, surpreendeu o governo brasileiro e motivou questionamentos na opinião pública sobre a possibilidade de novas ações semelhantes no continente. Entretanto, o professor da UnB afirma que a própria impossibilidade de prever os próximos passos é parte essencial da tática trumpista. “Não dá para saber, e não ficará claro, porque o método consiste justamente em alimentar a ambiguidade”, explica. A fragilidade da estratégia de defesa brasileira Antonio Jorge Ramalho é categórico ao afirmar que a Estratégia Nacional de Defesa do Brasil não está ajustada ao novo cenário regional. “A nossa estratégia precisa ser revista.” O principal problema é a dependência estrutural das Forças Armadas brasileiras em relação aos Estados Unidos. “Há uma dependência visceral. A doutrina, os equipamentos, a formação – tudo é baseado no padrão OTAN.” Essa dependência cria um impasse. “Se houver alguma grande confusão global, na mente dos estrategistas militares brasileiros, nós estaríamos juntos aos Estados Unidos, como estivemos na Segunda Guerra Mundial. Seria uma nova etapa, digamos, de uma cooperação e de uma relação de confiança. Pois bem, essa relação de confiança não existe mais ou não deve existir mais do ponto de vista dos militares brasileiros. Mas é muito difícil você mudar a mentalidade deles", afirma o analista em defesa. Além disso, os militares brasileiros continuam orientados por uma doutrina voltada para um inimigo interno inexistente, o que limita a preparação para ameaças ...
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